Introdução
Para que o resultado de um exame laboratorial se torne confiável e de qualidade, começa pelo preparo do animal, da coleta do material e do manuseio da amostra coletada. Quaisquer variações nos procedimentos podem comprometer o resultado do exame.
Respeitar as técnicas de coleta, preparar e realizá-la com cuidado, buscando artifícios para minimizar as alterações que possam ocorrer antes (ex. stress), durante (ex. garroteamento prolongado e anti-sepsia inadequada), e após a coleta (ex. contaminação e outras tais como, anticoagulantes, recipientes estéreis, tranqüilizantes, etc.) colabora para que haja uma correta interpretação dos exames fazendo com que medidas não apropriadas ao paciente sejam tomadas.
A identificação da amostra é um dos pontos fundamentais, e deve receber uma atenção especial do Médico Veterinário.
A padronização da coleta por parte do médico veterinário através de um manual de coleta contendo todos os procedimentos de coleta, é uma forma de garantir a qualidade do resultado final do exame.
VARIÁVEIS DO PACIENTE
Exercício
Exercícios físicos podem alterar o hematócrito e elevar o número de leucócitos. Estas alterações desaparecem algumas horas após o exercício. Portanto, sempre que o animal chega para coleta de material ele é colocado na sala de coleta enquanto relaxa.
Estresse
Animais transportados de um ambiente a outro, na presença de um veterinário, pessoas estranhas, sons e odores estranhos, levam, principalmente os gatos, a um estresse, o que pode causar um aumento da glicose sangüínea devido à liberação de epinefrina e no número de leucócitos e neutrófilos para a circulação periférica. Podemos ter aí um leucograma de stress, caracterizado por uma neutrofilia madura, linfopenia e eosinopenia. Neste caso deixa-se o animal o mais relaxado possível para dar inicio a coleta.
Dieta
O ideal é o paciente estar em jejum durante toda à noite (12 hs.) coleta. Amostras coletadas após o animal ter se alimentado pode apresentar-se lipêmica. A lipemia pode causar hemólise, concentração alta de glicose, lipídeos e aumento de bilirrubinas. Devido a dieta rica em proteínas ainda pode haver um aumento da uréia, já que as proteínas elevam o nitrogênio.
Drogas
Algumas cefalosporinas provocam alterações de creatinina, as tetraciclina interferem na determinação da glicose. O ácido ascórbico endógeno e exógeno pode influenciar os testes de glicose e nitrato negativamente. Os glicocorticóides podem alterar a contagem total e diferencial de leucócitos, pode aumentar os testes hepáticos, tais como a fosfatase alcalina e a ALT nos cães. A insulina exógena diminui as concentrações séricas de glicose, fosfato e potássio, nesses casos, se o animal esteja fazendo uso de medicamentos é informado ao proprietário sobre as alterações que ocorrem.
PREPARO DO ANIMAL
O ideal é realizar as coletas com o animal em jejum alimentar de 12 horas, evitando assim as variáveis. Muitas vezes a soroterapia também prejudica no resultado dos exames, pois soro glicosado, medicamentos adicionados durante a soroterapia, podem modificar, por exemplo, a concentração de glicose sanguínea. Em casos de impossibilidade do preparo do animal (jejum, medicação) é necessário colocar na requisição de exames e avisar ao laboratório no qual o material está sendo enviado, para o veterinário que realizará o exame estar ciente das possíveis variáveis. Para a glicemia é indispensável o jejum alimentar, para não acusar uma hiperglicemia alimentar.
QUANTIDADE E TIPO DA AMOSTRA
Para cada exame solicitado deve-se verificar o volume recomendado, enviando amostras em quantidades suficientes para a realização dos testes. Há necessidade de rever alguns procedimentos técnicos no momento da colheita, a fim de impedir alterações iatrogênicas no material enviado, o que de certo modo, provocaria considerações variáveis nos resultados, portanto :
* Exames Hematológicos: coletar no de 3 a 5 ml de sangue com anticoagulante.
* Dosagens Bioquímicas: coletar no mínimo 5 ml de sangue sem anticoagulante.
* Urinálise: coletar no mínimo 5 a 10 ml de urina.
* Fezes: coletar no mínimo 3 gramas de fezes frescas.
* Hemoparasitas: preferência esfregaço sanguíneo.
* Raspado de Pele: pelos menos duas lâminas com material da lesão.
A presença do anticoagulante é apropriada para os seguintes exames: hemograma completo, plaquetas e reticulócitos, Hemoparasitas (babesia, anaplasma erliquia, microfilária e trypanosoma), Pesquisa de Corpúsculos de Lentz, algumas bioquímicas (uréia, creatinina, TGO e TGP), VHS, Teste de compatibilidade sanguínea, Índice Ictérico, etc.
Devemos coletar sangue sem anticoagulante para a realização dos seguintes exames: Dosagens bioquímicas, Sorologia para Calazar, AIE, Brucelose, Leptospirose, CAEV , Teste Alérgico, etc.
IDENTIFICAÇÃO E ACONDICIONAMENTO DA AMOSTRA
Também é função da recepção receber amostras com as seguintes características e prestar as seguintes informações:
1. Cada frasco com amostra deve estar devidamente identificado com o nome do paciente, raça, idade, nome do proprietário, endereço, telefone, exame solicitado data e horário da coleta.
2. Observar que as informações contidas nos frascos devem coincidir com as informações das requisições.
3. Colocar a requisição no saco plástico na parte de fora da caixa de transporte.
4. Informar ao proprietário que as amostras de sangue quando colhido com anticoagulante, o seu acondicionamento é de 24 horas e no caso da urinálise é de 6 horas mantidos sob refrigeração e o soro sanguíneo deve ser acondicionado numa temperatura de 2º a 8º C.
5. Utilizar como conservadores de fezes: o frio, formalina a 10% e MIF (solução de mertiolate, Iodo e Formol).
6. Não deixar o material, principalmente sangue, em temperatura ambiente por muito tempo ou em altas temperaturas ou congelar o material (sangue total).Homogeneizar de forma correta e não agitar a de maneira excessiva a amostra.
Tubos e frascos
Certificar-se de que o frasco, tubos etc. estão bem vedados.
Acondicionar as amostras coletadas em saco plástico que deverão ser bem fechados, que poderão ser solicitados ao laboratório.
Caixa de Isopor
Dispor as amostras, na caixa de isopor, de modo que não possam virar durante o transporte. Após acondicionar as amostras, colocar gelo reciclável na caixa de isopor.
NOTA: não usar gelo comum.
PROCEDIMENTOS DE COLETA DE AMOSTRAS BIOLÓGICAS
Cada amostra é coletada em frasco com conteúdo adequado, na presença ou não de anticoagulante, onde deve ser homogeneizado suavemente.
Muitos veterinários preferem coletar na seringa e transferir o material coletado para o tubo. Neste caso o material tem que ser transferido imediatamente à coleta para o tubo com anticoagulante a fim de não coagular a amostra. Durante a transferência do material da seringa para o tubo, o sangue deve ser transferido suavemente, pelas paredes do tubo, a fim de evitar a hemólise sanguínea. Cada tubo possui capacidade para uma determinada quantidade de sangue, caso seja colocado sangue a mais da quantidade indicada, ocorrerá coagulação da amostra. Em caso de sangue a menos, a citologia pode apresentar-se alterada. Quando é verificada interferência como: hemólise, icterícia ou lipemia, coleta sanguínea após início de tratamento e “Stress, o médico veterinário é comunicado das prováveis alterações dos resultados que podem ocorrer devido às condições de coleta”.
SANGUE
Para a coleta de sangue o médico veterinário é auxiliado com o técnico, coloca mordaça no animal, faz a contenção de forma que não fique estressado, prepara a seringa com agulha, em seguida coloca o torniquete no braço do paciente, faz assepsia com álcool a 70% e algodão num único sentido, até que o local a ser puncionado esteja limpo. Após a coleta, liberar o torniquete e cobrir o local com algodão seco e distribuir o sangue nos respectivos tubos conforme solicitação.
Ordem para a coleta múltipla: É utilizado sempre primeiro os tubos sem anticoagulantes e depois os tubos com anticoagulantes.
Local indicado para coleta de sangue nos animais domésticos
* CANINOS E FELINOS: veia cefálica, veia safena lateral e safena medial e veia jugular.
* EQUINOS: veia jugular.
* RUMINANTES: veia jugular, coccígea média e mamária.
URINA
As análises de urina, vulgarmente chamadas exames de rotina, são de grande importância como auxiliares no estabelecimento do diagnóstico de muitas moléstias sistêmicas, ou do trato urogenital. Onde sua coleta pode ser realizada das seguintes maneiras:
* Deve ser coletada de forma asséptica, onde é utilizado álcool a 70% antes do inicio da coleta.
* Métodos utilizados: Cistocentese (mais recomendado), sondagem e urina coletada ao acaso (menos recomendada).
* É acondicionado em recipiente apropriado e hermeticamente fechado.
* Deve refrigerar a amostra até o momento da realização do exame.
* Para análise de bacteriúria e piúria é obtida uma amostra de urina não contaminada, pois as maiorias dos erros no tratamento das infecções do trato urinárias são devidas a erros de coleta.
* Os cálculos urinários devem ser colocados em frasco limpos e secos. Não é necessário uso de conservantes.
CÉLULAS
O exame citológico é uma excelente ferramenta no auxílio diagnóstico e prognóstico, necessita de uma pequena quantidade de material e serve para diferenciar processos inflamatórios agudos ou crônicos e neoplasias benignas e malignas.
A coleta desse material pode ser realizada através das seguintes formas:
* Citologia esfoliativa - usado para determinação do ciclo estral da cadela, processos inflamatórios uterinos, habronemoses, etc.
* Imprint-colhido do órgão ou nódulo suspeito, fazendo a impressão em lâmina limpa.
* Citologia Aspirativa por Agulha Fina - remove-se células da lesão utilizando uma agulha fina.
RASPADO DE PELE
As infecções fúngicas e parasitárias da pele dos animais, raramente resultam em mortalidade alta. Entretanto, muitas vezes, as lesões tornam-se semelhantes aquelas causadas por alterações hormonais, nutricionais,alérgicas, tóxicas e mesmo bacterianas.
Devido a isso, o exame do raspado de pele faz-se necessário para confirmar ou eliminar uma suspeita clínica.
O raspado de pele deve ser feito diretamente da região afetada da seguinte forma:
* Diretamente sobre as lesões - se estas forem pequenas.
* Nas bordas da lesão - se estas for grande.
* Raspado deve ser bem profundo, até começar a sangrar.
* Suspeitar de ácaros: coletar material exsudativo obtido de pústulas (se houver).
* Suspeitar de fungo: remover crostas inteiras, como também fazer a raspagem do pêlo do local afetado.
É importante salientar que as lesões que receberam algum tipo de tratamento não servem como área de coleta, pois podem fornecer materiais negativos.
FEZES
As fezes são constituídas de secreções intestinais, resíduos alimentares não digeridos e/ou não absorvidos, bile, leucócitos e piócitos, células descamadas e bactérias. Existindo parasitismo entérico no animal, encontram-se, também ovos e larvas, por isso esse exame tem como finalidade pesquisar as funções digestivas, parasitas entéricos, bactérias e hemorragia ocultam.
De acordo com a finalidade do exame, existe a necessidade de obedecer a certos requisitos como:
* De preferência retirar o material do reto do animal
* Quando as fezes forem oriundas de ambiente devem ser observadas se estão livres de sujidade (terra, capim etc.), não estão contaminadas com as de outros animais, se não contém urina e outros líquidos e originadas de ambiente controlado e higiênico.
* Para a pesquisa de funções digestivas e hemorragias oculta, utilizar fezes colhidas diretamente do reto ou de ambientes controlados e livres de contaminação.
* A amostra não deve ser refrigerada e não deve demorar mais que 12 horas.